Comida de sustância da Chapada Diamantina
Há pratos que nascem da necessidade. Outros, da abundância. O godó, também conhecido como godó de banana, nasce do encontro entre os dois. Tradicional da Chapada Diamantina, ele carrega a memória de uma cozinha de resistência, feita com o que havia por perto e com o que sustentava.
Baseado na banana-da-terra ainda verde, o prato ganha corpo no próprio cozimento. Quando vai ao fogo com alho, cebola, carne de sol ou linguiça, a banana libera amido e engrossa o caldo. O resultado é um guisado espesso, de textura rústica, capaz de lembrar a batata, mas com outra presença e outra lógica.
O godó tem raízes associadas ao tempo do garimpo. Era comida de panela única, direta, forte, preparada para sustentar jornadas longas e trabalho pesado. Em vez de depender de ingredientes externos, aproveitava o que o território oferecia: banana, carne salgada, temperos simples, fogo e tempo.
Não há excesso no godó. Seu sabor vem justamente da síntese. A gordura da carne encontra a neutralidade da banana verde, o refogado constrói a base, e a paciência faz o resto. O prato não se apressa. A cada minuto, o caldo ganha densidade, a banana se desfaz, o conjunto se amarra.
Ainda hoje, o godó permanece vivo nas cozinhas da Chapada. Mais presente nas casas do que nos cardápios, ele resiste como uma expressão discreta, mas profunda, da culinária local. Em tempos em que tanto se fala em comida de raiz, o godó não precisa ser reinventado. Precisa apenas ser lembrado.
No Vale do Capão e em outras partes da Chapada Diamantina, pratos como esse ajudam a contar o território por outro caminho. Não apenas pelas trilhas, pelas serras ou pelas cachoeiras, mas também pelo que vai à mesa. E o godó, com sua sustância silenciosa, continua dizendo muito sobre a vida daqui.