Horto comunitário no Vale do Capão revela prática ambiental além do discurso
No imaginário de quem visita ou pesquisa o Vale do Capão, em Caeté-Açu, na Chapada Diamantina, a imagem predominante costuma ser a de cachoeiras imponentes, trilhas extensas e uma natureza preservada. Menos visível, porém, existe um espaço que ajuda a sustentar, na prática, o discurso ambiental associado à região: o horto comunitário conhecido como Vale Flora.
Distante da ideia tradicional de “horto florestal” — comum em centros urbanos, com estrutura voltada ao lazer e à visitação — o espaço no Capão assume outra função. Trata-se de um viveiro de mudas e centro de educação ambiental, construído a partir da mobilização local e mantido, em grande parte, por trabalho voluntário.
No local, são cultivadas espécies nativas da Chapada Diamantina, além de plantas medicinais e frutíferas. A produção também inclui insumos como húmus e biofertilizantes, utilizados tanto na própria área quanto distribuídos em iniciativas de plantio e recuperação ambiental na região. Mais do que um espaço de cultivo, o horto opera como ponto de articulação comunitária.
A dinâmica de funcionamento está baseada em mutirões, atividades educativas e trocas de conhecimento. Escolas, moradores e visitantes participam de ações que vão desde o plantio até discussões sobre conservação ambiental. Nesse sentido, o horto cumpre um papel formativo, conectando práticas cotidianas à preservação dos ecossistemas locais.
A existência desse tipo de iniciativa revela uma dimensão menos explorada do Capão. Enquanto a internet projeta o vale como refúgio ecológico e espiritual, espaços como o Vale Flora evidenciam o esforço necessário para manter esse equilíbrio. A preservação da paisagem que atrai visitantes depende, em parte, de ações contínuas de recuperação do solo, proteção de nascentes e reflorestamento.
Inserido em um território que enfrenta pressões crescentes — como aumento do turismo, valorização imobiliária e desafios de infraestrutura — o horto também se torna um símbolo silencioso de resistência. Ele aponta para uma lógica de desenvolvimento baseada na participação comunitária e na relação direta com a terra.
Mais do que um equipamento ambiental, o horto comunitário do Vale do Capão expressa uma escolha coletiva: a de transformar o ideal de sustentabilidade em prática cotidiana. Em um cenário onde a imagem do paraíso natural circula com força, iniciativas como essa ajudam a revelar o trabalho concreto que sustenta essa narrativa.